Jamie Nelson para a Elle Mexico

As tintas capilares são provavelmente um dos meus produtos cosméticos favoritos! Elas permitem-nos esconder os cabelos brancos e alterar a cor original da nossa cabeleira de forma mais ou menos permanente. São utilizadas por grande parte da população e tal como para os restantes produtos cosméticos, os fabricantes das tintas capilares devem provar a sua segurança antes de as colocar no mercado, quando usadas de forma correta. E isto não é um pormenor. Não é por acaso que as tintas capilares têm uma rotulagem extensa, com conselhos de utilização tão detalhados. Nesta publicação vamos falar dos diversos tipos de tintas capilares que podemos encontrar, da sua segurança, e dos mitos frequentemente associados a estes produtos.

A fibra capilar

 

Antes de falar de tintas capilares, é importante recordar a constituição da fibra capilar. Esta divide-se em cutícula, mais externa, córtex e medula, mais interna. Os produtos capilares atuam maioritariamente sobre a cutícula, formada por “escamas”, e que pode possuir 7 a 10 camadas, tornando cada cabelo mais ou menos espesso.

 

Tipos de tintas capilares

A categorização das tintas capilares por durabilidade do efeito é mais ou menos consensual entre profissionais de cabeleireiro e comunidade científica, tendo por base também a sua composição. Mas durabilidade pode ser condicionada por outros fatores, pelo que nem sempre uma tinta que consideramos temporária será tão temporária assim, e há casos em que as tintas permamentes podem sofrer um desbotamento significativo ao longo do tempo (1).

  • Permanente
As tintas capilares permanentes permitem tingir os cabelos com corantes que, na sua maioria, não são removidos durante as lavagens. Para que isto aconteça, o processo de coloração permanente envolve várias fases (2):
  • Abertura da cutícula capilar por um alcalinizante;
  • Oxidação e consequente despigmentação da melanina que dá a cor natural ao cabelo pelo peróxido de hidrogénio;
  • Entrada das moléculas percursoras dos corantes capilares (pequenas) e moléculas auxiliares de reação através da cutícula, até a camadas mais profundas da mesma ao córtex ;
  • Oxidação dos percursores dos corantes capilares pelo peróxido de hidrogénio, ligação das moléculas auxiliares da reação e transformação em corantes suficientemente grandes para que não abandonem a cutícula.

Podemos encontrar dois tipos de alcalinizantes em tintas capilares:  

Amoníaco: Trata-se de um gás, e tem um odor característico. É muito eficaz, e por isso usa-se em pequena quantidade, além de auxiliar na eliminação da melanina, a par da oxidação proporcionada pelo peróxido de hidrogénio (3). Após a aplicação, a amónia dissipa-se rapidamente e abandona a fibra capilar. Não é um alergénio, até porque se trata de um composto produzido pelo metabolismo do organismo. 

Etanolamina: É um líquido (não tem odor) e por esse motivo, ao contrário do amoníaco, persiste no cabelo por mais tempo. É etanolamina é também menos alcalina do que o amoníaco, motivo pelo qual é usada em concentrações superiores para que se consiga obter a mesma alcalinidade na formulação, é um igi grau de abertura da cutícula capilar. Contudo, a etanolamina não contribui para a degradação da melanina em conjunto com o peróxido de hidrogénio da mesma forma que o amoníaco. Pensa-se que a persistência da etanolomina no cabelo e a sua baixa contribuição para a degradação da cutícula capilar são responsáveis pelo facto de as tintas sem amoníaco não permitirem alterações de tom tão drásticas, e poderem até oferecer resultados menos previsíveis. Por outro lado, um estudo demonstrou que, ao longo do tempo, a coloração com tintas com etanolamina pode ser mais danosa para a fibra capilar do que o uso de tintas com amoníaco (4). As tintas sem amoníaco são usadas sobretudo por quem não tolera o odor do amoníaco, e são por vezes chamadas de demi-permanentes.   Uma vez que o processo de coloração com tintas capilares permanentes envolve reações de oxidação, a mistura dos corantes capilares, onde se encontra também o alcalinizante, com o agente oxidante deve ser realizada imediatamente antes da coloração do cabelo.

Tradicionalmente, as tintas capilares semi-permanentes não requerem o uso de alcalinizantes, oxidantes para a descoloração da melanina nem para a formação dos corantes capilares. Estes já se encontram formados, e por isso penetram menos através da cutícula capilar do que nas tintas anteriores, ligando-se a ela (1,2). As tintas capilares semi-permanentes convencionais são removidas em 4 a 10 lavagens, dependendo das cores escolhidas e das características do cabelo.
 
Mais recentemente, encontramos no mercado tintas capilares semi-permanentes com uma baixa concentração de oxidantes e alcalinizantes, sobretudo etanolamina, e que por isso poderão mesmo durar 28 lavagens. Também estas colorações podem ser consideraras demi-permamentes.
 
As tintas capilares semi-permanentes são indicadas para cobrir parcialmente os cabelos brancos, ou alterar ligeiramente o tom do cabelo.
 
Também nas tintas capilares temporárias não há qualquer processo oxidativo ou alcalinizantes. Estes produtos destinam-se a depositar corantes maioritariamente à superfície da cutícula (1,2). Assim, as tintas capilares temporárias oferecem uma coloração mais ou menos duradoura e muito variável, dependendo dos corantes usados e do cabelo a tingir, e não têm capacidade de clarear o tom de cabelo original.
 

 

Cuidados a ter

 

É sempre boa prática ler o modo de utilização de qualquer cosmético, seja ele qual for. Mas não é por acaso que as embalagens das tintas capilares estão repletas de avisos, e que alguns deles se encontram destacados em letras garrafais. 

 
Apesar destes produtos serem seguros, caso contrário a sua comercialização não seria autorizada, é muito importante que estas recomendações sejam respeitadas. Estas serão algumas das mais importantes:
 

 

Mitos

Jamie Nelson para a Elle Mexico

 
Se os mitos sobre cabelos são muitos, os mitos sobre coloração não lhes ficam atrás! Conhecendo o modo de funcionamento das tintas capilares e atentando à literatura científica, é possível esclarecer alguns deles:
 
Nunca foi provado, e é pouco provável que exista uma relação de causa-efeito entre o uso de tintas capilares e o desenvolvimento de cancro. Em primeiro lugar porque os corantes, incluindo os corantes capilares, são alguns dos ingredientes mais estudados em termos toxicológicos. Há muitos corantes capilares proibidos na União Europeia, e os limites de concentração dos ingredientes permitidos são restritos, tendo em conta a avaliação toxicológica destes ingredientes, que inclui a determinação da sua genotoxicidade e mutagenicidade (5). Além disso, é importante relembrar que todos os produtos cométicos estão sujeitos à elaboração de um relatório de segurança antes de entrar no mercado, que inclui estes e outros aspetos da segurança do produto.
 
Apesar de tudo isto, há alguns estudos, compilados numa meta-análise recente, que sugerem, que as mulheres destes estudos que usaram tintas capilares teriam uma maior probabilidade de desenvolver cancro da mama (6). E se esta frase vos alarmou, sugiro que a releiam com atenção as palavras sublinhadas, porque estas fazem toda a diferença. Para já, o aumento de probabilidade será muito reduzido, e parece ser até superior para as tintas enxaguadas do que para as permamentes, cuja composição é distinta. Mas o ponto fundamental prende-se com o facto de estes estudos permitirem apenas identificar uma associação, ou seja, a probabilidade de dois acontecimentos ocorrerem em simultâneo, mesmo que não estejam relacionados um com o outro. Como é que isso é possível? É muito simples: Sabiam que o aumento do número de afogamentos e o número das vendas de gelados estão frequentemente associados (7)? Ora, isto não quer dizer que um evento causa o outro. O facto de o consumo de gelados e de o número de pessoas que nada no mar ou piscinas ser superior durante o verão explica esta associação de fenómenos. Infelizmente, aquilo que muitas pessoas intrepretam quando lêem estudos é uma relação de causalidade, ou seja, que o uso de tintas capilares causa cancro da mama. Mas o estudo não diz isso nem poderia fazê-lo, já que aquilo que é estudado é o facto de os dois fenómenos acontecem em simultâneo, e não se há uma relação de causa-efeito entre eles. E tendo em conta que no nosso dia-a-dia contactamos diariamente com diversas substâncias provenientes do ar, alimentos, poulição e até com radiações com maior ou menor potencial mutagénico, sem estudar especificamente uma relação de causa-efeito não é possível concluir que ela exista. Os estudos são úteis no sentido de icentivar um estudo posterior que possa verificar se existe uma relação de causalidade, mas não permitem prová-la. E neste caso, recordo, a associação é relativamente fraca. Um exemplo: Muitos dos estudos compilados nesta meta-análise não avaliaram se a entrevistada era obesa (6 em 14), a idade da primeira gravidez (7 em 14), a idade da menopausa (7 em 14) ou o consumo de álcool (9 em 14). Todos estes aspetos são fatores de risco reconhecidos para o desenvolvimento de cancro da mama (8). Ou seja, se os estudos não ponderaram estes aspetos nas entrevistas, não sabemos se eles tiveram algum contribuído para o estado de saúde das participantes e interferiram nos seus resultados. E sendo estes fatores reconhecidos, quando estamos perante uma associação pequena, podem fazer toda a diferença. Mas há outras questões, embora menos relevantes, que podem influir mais ou menos na probabilidade de desenvolver cancro da mama. Um exemplo: é possível que nas populações estudadas as mulheres que habitem e trabalhem em zonas mais rurais de uma mesma cidade, e menos poluídas, pintem o cabelo com menos frequência do que aquelas que habitam e trabalham zonas mais urbanas, com maior tráfego automóvel, etc. Isto poderá afetar o resultado dos estudos. Paralelamente a tudo isto, há um outro ponto muito relevante e que pode fazer com que a maioria dos estudos desta meta-análise não se possa aplicar de forma alguma à nossa população: Existem corantes capilares permitidos nos países onde é realizada a maior parte destes estudos, e que são proibidos na União Europeia, ou que têm aqui as suas concentrações máximas mais limitadas. Tendo em conta que só um dos 14 estudo foi realizado num país da União Europeia (Finlândia), e que nenhum estudo não faz a distinção de quais os corantes presentes nas tintas capilares usadas por casa indivíduo em cada país, não podemos prever sequer que esta reduzida associação, sem causalidade definida, se aplique àquilo que se passa na população portuguesa. Por todos estes motivos, não podemos estabelecer uma relação de causa-efeito entre o uso de tintas capilares e o desenvolvimento de cancro da mama.
 
Não. Desde já porque todas as tintas de ervanária são produtos cosméticos, e todos os produtos cosméticos devem cumprir exatamente a mesma legislação. Depois, porque se as tintas de ervanária forem permanentes, é porque podem usar exatamente os mesmos ingredientes das restantes. E usam. Caso contrário, não confeririam uma coloração permanente. Ter expressões como “herbal”, “natural” ou “com extratos botânicos” na rotulagem não muda o facto de que essa tinta também contém os corantes capilares usados na coloração permanente, e de forma legítima, porque são seguros. Assim, não há como classificar estes produtos como sendo mais ou menos seguros do que os restantes, já que podem usar exatamente os mesmos ingredientes, nem tão pouco temos critérios para fazer essa comparação.
 
Paralelamente, existem outras tintas, não necessariamente vendidas de ervanária, cujas marcas optam por não conter determinados corantes capilares que embora sendo permitidos, porque são seguros, podem causar alergias com uma frequência ligeiramente superior. Estima-se que 0,8% da população europeia será sensível à p-fenilenodiamina, por exemplo, e será maior em indivíduos que usam henna (3,2%) (9). Serão então as tintas que não o contêm mais seguras? Para a esmagadora maioria dos consumidores não, porque não são alérgicos, e a percentagem dos consumidores com alergia a este composto é bastante baixa. Nesse sentido, não podemos afirmar, de forma generalista, que estas tintas são mais seguras. Já para os raros consumidores alérgicos, as tintas que não o contêm podem constituir a única forma de poder usar tintas capilares. Aliás, as possíveis alergias a ingredientes cosméticos constiuem um dos motivos pelos quais é obrigatório que todos os produtos cosméticos contenham uma lista de ingredientes com a sua composição completa. Por não conterem estes e outros compostos, ou até uma menor concentração de corantes no geral, a variedade de tons disponíveis nestas tintas é mais reduzida.
 
Também não. Em termos de segurança, aplica-se o mesmo raciocínio da resposta à questão anterior. Mas também não podemos fazer esta afirmação em termos de dano capilar. Isto porque o dano procado pelas tintas está fundamentalmente associado aos compostos usados para elevar a cutícula (amoníaco e outros) e à concentração de oxidante das mesmas. Ora, todas as tintas permanentes têm que conter um alcalinizante. Já no caso dos oxidantes, a concentração pode até a ser menor em tintas de supermercado do que aquelas que são usadas em cabeleireiro, dependendo da opção do profissional e da tonalidade desejada. Assim, o grau de dano conferindo por uma tinta não depende do local onde a compramos mas sim da sua composição, e essa não é uniforme entre os segmentos de supermercado e cabeleireiro.
 
Não necessariamente. Para já, não existem estudos comparativos que nos permitam afirmar isto de forma clara, e menos ainda generalizar para todas as tintas de ambos os segmentos. Depois, os grandes fabricantes de tintas de cabeleireiro são os mesmos das tintas de supermercado. Eventualmente os tons serão diferentes entre as diferentes gamas, mas isso não quer dizer que haja diferenças na qualidade. Além disso, as tintas profissionais, em que compramos cores e oxidantes em separado, permitem obter uma maior variedade de tons. Apesar disto, é inegável que uma coloração profissional tenderá a conseguir um resultado mais uniforme e bonito, além de que não é fácil executar descolorações, colorações platinadas ou com madeixas e outros pormenores em casa. Por outro lado, há pessoas que sentem dificuldade em pintar o próprio cabelo. Neste sentido, os cabeleireiros nunca serão totalmente substituíveis por produtos de uso domiciliário.
 
Não. O facto de estas tintas não terem odor, ao contrário daquelas que usam amoníaco, não faz delas mais ou menos tóxicas. São igualmente seguras. Contudo, há pessoas que não apreciam o odor do amoníaco ou são especialmente sensíveis à irritação nasal que provoca, e pretendem uma coloração semelhante ao tom natural do cabelo. Nesses casos, a opção por estas tintas será interessante.
 
Não é comum, mas pode acontecer. E é por esse motivo que a legislação exige que os fabricantes altertem para a necessidade de realizar um teste de alergia pelo menos 48 antes da primeira utilização de uma tinta capilar. Se este teste for realizado, e se não houver qualquer reação, é ainda menos provável que se venha a desenvolver alergia durante a coloração capilar.
 
A menos que tenha indicação médica em contrário, sim. A avaliação de segurança dos corantes capilares inclui também a avaliação da sua toxicidade reprodutiva e teratogenicidade. Por outro lado, as tintas capilares são usadas por mulheres grávidas há muitas décadas, e nunca se provou alguma relação de causa-efeito entre estes produtos e prejuizos para a grávida, o feto ou o bebé. Em todo o caso, é importante reforçar a importância das medidas de segurança no manuseio das tintas capilares.
 
Conclusão
 
As tintas capilares são produtos cosméticos que podem ser classificados em termos de durabilidade como permanentes, demi-permanentes e temporárias. Estes produtos destinam-se a ser usados no máximo a cada 3 semanas, e requerem cuidados especiais aquando do seu uso para que segurança do consumidpr possa ser garantida.
 
 

Referências

1. Draelos Z. Hair Care 1st edition. Taylor & Francis; 2005.

2. Robbins CR. Chemical and Physical Behavior of Human Hair 5th edition. Springer, 2012.

3. Smith R. The Role of Monoethanolamine in Hair Bleaching and Dyeing: Mechanistic Insights from Model Formulations [PhD thesis]. University of York; 2014.

4. Bailey A, Zhang G, Murphy B. Comparison of damage to human hair fibers caused by monoethanolamine- and ammonia-based hair colorants. Journal of Cosmetic Science. 2014;(65(1):1-9.

5. Hair dye products – Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs – European Commission. European Commission. [consultado a 28 de Fevereiro de 2021]. Disponível em: https://ec.europa.eu/growth/sectors/cosmetics/products/hair-dye_en

6. Xu S, Wang H, Liu Y, Zhang C, Xu Y, Tian F et al. Hair chemicals may increase breast cancer risk: A meta-analysis of 210319 subjects from 14 studies. PLoS ONE. 2021;(e0243792).

7. Correlation vs. Causation | Marcellus Community Science. E-education.psu.edu. 2021 [consultado a 28 de Fevereiro de 2021]. Disponível em: https://www.e-education.psu.edu/marcellus/node/636

8. Factores de Risco – Cancro da Mama. Liga Portuguesa contra o Cancro. 2021 [consultado a 28 de Fevereiro de 2021]. Disponível em: https://www.ligacontracancro.pt/cancro-da-mama-factores-de-risco/

9. Diepgen T, Naldi L, Bruze M, Cazzaniga S, Schuttelaar M, Elsner P et al. Prevalence of Contact Allergy to p-Phenylenediamine in the European General Population. Journal of Investigative Dermatology. 2016;(136):409-415.


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