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Porque a eficácia de um produto vai muito além dos seus ingredientes ativos e concentrações, achei que estava na altura de esclarecer as muitas questões relacionadas com este assunto. Não irei falar de “ingredientes perigosos” (que não o são) pelo simples facto de que nenhum produto no mercado os pode conter (mais informação aqui). Reforço apenas que este texto tem por base a legislação europeia, Regulamento (CE) nº 1223/2009. Por este motivo, os conceitos e perspetivas apresentados podem não se aplicar em todos os países.


Ingredientes ativos

 
Um conceito essencial para progredirmos nesta conversa. Em produtos cosméticos não há substâncias ativas (exclusivas de medicamentos) nem pricípios ativos (conceito totalmente obsoleto).
Muito simplesmente, os ingredientes ativos são responsáveis exercer a função a que o produto se destina, de forma total ou parcial. Podem ser antioxidantes, anti-caspa, seborreguladores, esfoliantes, suavizantes (também conhecidos como apaziguantes), antirrugas…
Nem sempre é fácil definir os ingredientes ativos de uma dada formulação, até porque muitas vezes não existe evidência científica que suporte adequadamente a utilização de alguns deles para a finalidade a que a marca os destina. Por outro lado, há produtos cuja função não requer o uso de ingredientes ativos especiais (hidratantes simples, champôs de uso frequente, desmaquilhantes, etc.).
Apesar disso, há ingredientes ativos muito usados e de eficácia reconhecida.
Para o cuidado da pele, os ingredientes mais famosos são o retinol, vitamina C e alguns dos seus derivados, niacinamida, vitamina E, a ácidos esfoliantes. Também existem extratos vegetais e ingredientes de origem mineral ou animal de eficácia reconhecida para determinadas aplicações, como por exemplo a lanolina, aveia coloidal, extrato de chá verde ou óxido de zinco.
Excipientes
Estes são os restantes ingredientes da formulação, sendo essenciais para garantir a segurança, eficácia, preservação, e características sensoriais do produto final.
  • Veículo/base
Raros são os produtos cosméticos constituídos apenas por um ingrediente. A grande maioria dos ingredientes ativos precisa de um meio através do qual este possa ser facilmente utilizado pelo consumidor, por forma a corresponder a todos os requesitos acima mencionadas. Isto porque os ingredientes ativos podem estar no estado sólido, necessitando de ser dissolvidos num meio adequado, podem ser irritantes no seu estado puro, podem ter um odor ou textura desagradável, pode, ser instáveis…
Este meio, veículo para líquidos ou base para semissólidos; é composto por excipientes. O número, variedade e qualidade dos excipientes usados depende naturalmente do produto em questão. Na maioria dos casos, os cosméticos podem ser de dois tipos:
  • Com uma fase apenas: soluções (óleos e águas micelares) e pomadas;
  • Com duas ou mais fases: emulsões, aerossóis, geles/géis, suspensões e cremes.
Como seria de esperar, isto fará variar a composição do produto.
É também importante considerar que um mesmo ingrediente pode ter funções totalmente diferentes em produtos distintos, dependendo da finalidade desse produto, concentração utilizada e da sua interação com os restantes ingredientes da formulação.
De forma muito sumária, estes são alguns dos excipientes frequentemente usados:
  • Humectantes
Como o nome indica, estes ingredientes permitem atrair a água; retendo-a nas suas imediações. Isto resulta numa maior suavidade, “viço” mas também no preenchimento das linhas de desidratação da pele e elasticidade do cabelo.
Alguns dos mais comuns são a glicerina, propilenoglicol e ácido hialurónico.
  • Condicionadores
Usados especialmente em produtos capilares. Destinam-se a aderir, preeencher e/ou revestir a queratina da cutícula capilar, tornando-a mais lisa e brilhante. Isto facilita também o desembaraçar dos cabelos.
  • Emolientes
Permitem “amaciar” a pele e cabelo, preenchendo as suas lacunas, proprocionando uma superfície mais lisa; e lubrificando a sua superfície.
Os silicones, álcoóis gordos e óleos vegetais proporcionam esta sensação.
Os primeiros são especialmente contestados e evitados, sendo muitas vezes apelidados de “fillers”. Na verdade existem centenas senão milhares de silicones diferentes, e estes podem ser uma grande variedade de funções. No entanto, e como emolientes; estes atuam exatamente pelo mesmo mecanismo dos restantes ingredientes, sendo especialmente eficazes e económicos.
A grande oposição ao uso de silicones poderá ser a sua baixa degradabilidade e persistência ambiental.

  • Oclusivos
Têm também uma ação emoliente, mas em concentrações elevadas podem reduzir drasticamente as trocas gasosas entre a pele e o exterior; retendo assim mais água.
Porém, isto não quer dizer que o produto que os contém seja 100% oclusivo: primeiro, porque o próprio ingrediente também não o é. Depois, porque geralmente estes ingredientes apenas constituem uma fração do produto final.
A vaselina e parafina líquida são os mais usados, mas a lanolina e alguns silicones poderão ter também uma ação oclusiva.
  • Tensioativos
Podem estar presentes num produto de limpeza, onde são responsáveis pela sua ação detergente, ou num qualquer outro produto; com a finalidade de o tornar homogéneo e estável.
Isto é comum no caso das emulsões, que precisam destes ingredientes para conjugar as fase(s) oleosa(s) e aquosa(s); ou simplesmente para tornar um ingrediente específico mais solúvel no veículo/base desejado.
São tensioativos comuns o lauril-éter sulfato de sódio, polissorbatos, poloxâmeros, ou derivados de ácidos gordos e açúcares.
  • Modificadores de viscosidade
Este tipo de ingrediente é muito importante para melhorar a sensorialidade, estabilidade ou a capacidade de penetração do produto; entre outros atributos.
Os carbómeros, polímeros do ácido acrílico (entre muitos outros) e o cloreto de sódio (sal) são apenas alguns exemplos.

  • Fragrâncias
Estes ingredientes destinam-se não só a acrescentar perfume ao produto, mas sobretudo a mascarar os odores menos agradáveis da formulação.
Podem ser identificadas “Parfum” na lista de ingredientes, ou ter origem em extratos vegetais e óleos essenciais.
  • Conservantes
Estes ingredientes têm ação antimicrobiana, sendo usados em quase todos os produtos que contêm água (a maioria). São essenciais para garantir que o produto apresenta um prazo de validade aceitável e que é seguro para o consumidor.
  • Ajustadores de pH
São isso mesmo: ácidos ou bases que se diluem no produto para atingir a gama de pH ideal para a sua estabilidade e adequabilidade para uso cutâneo, capilar ou nas mucosas externas.
São usados frequentemente o hidróxido de sódio, ácido cítrico, trietanolamima e ácido lático.

  • Antioxidantes (da formulação)
Estes ingredientes visam minimizar a oxidação da formulação, e podem ser essenciais na presença de ingredientes mais suscetíveis a este fenómeno como óleos e extratos vegetais, vitamina C (também antioxidante), retinol…
É comum vermos o BHT, tocoferol e derivados (vitamina E) ou ácido cítrico.
  • Promotores depenetração
Estes ingredientes permitem desestabilizar temporariamente a estrutura do estrato córneo (camada superior da epiderme), facilitando assim a penetração da formulação.
Utilizam-se frequentemente o álcool etílico, ureia, e óleos essenciais.
O que é mais importante para a eficácia do produto?
Tudo. É óbvio que os ingredientes ativos têm um papel fundamental, quando a formulação assim o requer. Mas se estes não forem estáveis, se não penetrarem até às camadas onde devem atuar, ou se a formulação não for agradável; de nada adianta ter os melhores ativos do mundo.
Existem ainda algumas situações em que se pode justificar usar menores concentrações de ingredientes ativos, conseguindo-se manter ou melhorar a eficácia e segurança do produto. Estas situações são muitas vezes invisíveis quando lemos uma lista de ingredientes, mas podem fazer toda a diferença na performance do produto final.
Que outros fatores podem influenciar a eficáciade um produto cosmético?
Para que tenham uma perceção da panóplia de exemplos que vos poderia dar, deixo-vos apenas uma introdução:
  • Concentração mínima eficaz do ingrediente ativo
Poucos ingredientes estão suficientemente estudados para que tenhamos acesso a esta informação. No entanto, esta concentração será sempre diferente de substância para substância.
Vejamos os exemplos das vitaminas C, ácido ascórbico, e A, retinol. O primeiro, na sua forma pura, é eficaz a concentrações entre 5 e 20%. Já o segundo dificilmente ultrapassará 1% do produto final, situando-se normalmente entre os 0,1-0,3%. Como será previsível, isto faz toda a diferença na interpretação de uma lista de ingredientes.
  • Origem dos ingredientes
Embora todos os ingredientes tenham que garantir a segurança do consumidor final, a composição de um ingrediente com a mesma designação INCI (presente na lista de ingredientes) pode variar significativamente entre fornecedores, ou até num mesmo fornecedor.
O melhor exemplo disto são os extratos vegetais, cuja composição varia de acordo com a parte da planta usada na extração, método de extração, solvente, temperatura, local de plantação, tipo de agricultura, entre muitos outros.
Mas os ingredientes de origem sintética também podem variar significativamente. No caso dos polímeros, como os silicones, a mesma designação INCI pode corresponder a substâncias com diferentes graus de polimerização.
  • Interação entre ingredientes
Imagem de Making Skincare
Quando combinados, alguns ingredientes atuam de forma superior à soma da ação de cada um deles isolado; num fenómeno denominado por sinergia. A associação das vitaminas C e E, quando usadas como antioxidantes, é exemplo disso.
Por outro lado, há ingredientes que permitem modular a libertação, estabilidade e estrutura química de outros componentes da formulação. Neste caso, temos como exemplo o uso de alguns modificadores da viscosidade e emolientes com vista a retardar a libertação de ingredientes de elevado potencial irritante; ou o revestimento de pigmentos por polímeros, que altera a sua cor e/ou estabilidade.
Imagem de Semantic Scholar
  • Vetorização 
Em lipossomas, micelas, ciclodextrinas e partículas de dimensões micro (1 000 000 vezes menores do que o metro) ou nano (1 000 000 000 vezes menores)… Entre muitas outras estruturas possíveis.
A encapsulação e criação de partículas de pequenas dimensões permite proteger os ingredientes da degradação, prolongar a sua libertação ao longo do tempo, ou até favorecer a sua penetração; o que contribuirá para a eficácia do produto final sem comprometer a sua segurança.
Numa lista de ingredientes cuja marca não revele a utilização deste tipo de tecnologia, encontarão apenas tensioativos, emolientes, açúcares ou polímeros comuns; e que poderiam ser usados para várias finalidades.

  • Método de produção
A ordem de adição dos ingredientes, temperatura usada no fabrico, variações de pH ou velocidade de agitação da mistura podem mudar radicalmente o tamanho das micelas, no caso de se tratar de uma emulsão, a viscosidade do produto final, ou até permitir o desenvolvimento de interações entre ingredientes.
Isto faz com que para uma mesma lista de ingredientes com a mesma concentração possamos obter produtos com características sensoriais, eficácia ou estabilidade totalmente distintas.
Muitas vezes, e tal como os próprios ingredientes, estes métodos são patenteados pela empresa e não podem ser copiados pela concorrência, tal é a sua relevância.
  • Embalagem
A embalagem é provavelmente tão importante para a estabilidade do produto como a formulação propriamente dita.
Uma embalagem que não permita o contacto de produto com o exterior até ao momento do uso pode dispensar o uso de conservantes, por exemplo, quando combinada com um método de preparação e controlo de qualidade adequados. Já um produto acondicionado em boião terá provavelmente que apresentar uma concentração de conservantes mais elevada do que o mesmo produto exigiria em bisnaga ou embalagem airless, a fim de resistir à contaminação microbiológica.
Por outro lado, uma formulação embalada a vácuo e protegida da luz garantirá uma maior preservação dos seus ingredientes sensíveis à oxidação.
Existem ingredientes “fillers”?
Esta é uma palavra de cariz depreciativo e que poucas vezes é aplicada com justiça. Reza a lenda que muitas marcas usam ingredientes para “encher” as formulações ao invés de usar ingredientes ativos, tornando-as mais baratas de produzir.
Se por um lado a indústria cosmética faz tudo o que está o seu alcance para tornar a produção mais económica, como qualquer outra; será que após vos ter apresentado todas as variáveis anteriores são capazes de classificar um ingrediente desta forma, sem ter qualquer dúvida?
Alguns dos ingredientes mais visados com o rótulo de “fillers” são os silicones, álcool etílico e derivados do petróleo; que tal como foi explicado podem ter funções variadas e importantíssimas na eficácia, segurança e estabilidade da formulação.
Muitas vezes, quem faz esta crítica desconhece por completo todos estes fatores. Porque se a formulação de produtos cosméticos se resumisse à escolha de ingredientes ativos, certamente não teríamos formulações tão diversas, tanta variedade de excipientes, nem tão pouco o mercado seria tão competitivo.
Apesar disso, é inegável que o mercado está repleto de produtos que não sobrevivem às expectativas que a marca deposita nos consumidores.
Nesse caso… Como saber se um produto é eficaz? 
Imagem de Measurement Science and Technology
Na verdade só há uma forma de ter a certeza: através de ensaios clínicos aleatorizados e controlados; preferencialmente publicados em revistas científicas indexadas para que sejam sujeitos ao escrutínio da comunidade científica. Isto porque por muito boa que seja a intenção do fabricante em selecionar os melhores ingredientes e método de produção, só podemos garantir que o produto é eficaz e medir a significância dessa mesma eficácia após a utilização do mesmo por pessoas reais. Infelizmente poucas marcas realizam e publicam ensaios clínicos. Além destes serem extremamente caros, nem sempre os resultados são especialmente positivos e para alguns produtos este tipo de estudo nem sequer se justifica.
Posto isto, é importante compreender que por muito que percebamos de cosmetologia devemos sempre encarar a interpretação de uma lista de ingredientes como uma mera previsão. Dificilmente vamos ter informação suficiente para adivinhar o comportamento dos ingredientes ativos naquela formulação, e será ainda mais difícil adivinhar a forma como o seu conjunto irá interagir com a nossa pele ou cabelos.
O problema dos ingredientes ativos isolados
Imagem de The Atlantic
Creio que este tipo de produto, inaugurado pela marca The Ordinary; estará na origem desta polémica.
Podem ser excelentes opções por questões económicas e para dar à pele concentrações mais interessantes de ingredientes ativos do que aquelas que normalmente se encontram no mercado.
No entanto, muitas vezes são necessários vários produtos para obter um determinado resultado, o que pode ter duas consequências: irritação, por sobreposição de ingredientes de potencial irritante em concentrações elevadas, ou um acabamento inestético; por incompatibilidade entre formulações e/ou excesso de produto que não é absorvido pela pele. Já abordei este tema em detalhe aqui.
Assim, os produtos contendo ingredientes ativos isolados e concentrados podem ser muito interessantes para um determinado perfil de consumidor, mas dificilmente serão uma opção adequada para a maioria das pessoas; que não são nem têm que ser obrigadas a ser especialistas em cosmetologia.
 

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